Memória das ruínas de creta

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O texto de Bernadette Lyra toma o sentido mítico de ruína como extensão da memória. Assim, as imagens de Nelma Guimarães evocam a palavra-matriz (ruína) enquanto a transfiguram. Só que essa palavra-matriz é um “lugar” tomado como topos para Vitória. E a encenação no imaginário desse “lugar” torna possível um percurso, um geografar a memória, pela conjunção entre familiaridade e estranhamento que molda a relação entre palavra e imagem. O efeito mítico inscreve a coreografia da encenação como suporte. Digamos então que a tradução mítica se configura pela estreita relação, na perfeita integração, entre texto e imagem (entre o geografar e o cartografar). Portanto, Vitória como memória de Creta é uma fabulação sobre as ruínas feita “real” no mítico ou sobre o efeito de “real” da ficção. A estratégia é construir o percurso mítico através de um espaço “real”, isto é, de um espaço presente como referente do mítico. Não há transição entre o tempo ficcional e o presente da mítica. Não há transição entre o tempo ficcional e o presente da narrativa. Vitória é uma ilha-memória presente em uma ruína mítica. Vitória uma Creta presente. A ilha real e a ilha mítica têm como ponto de conjunção, como ponto zero, ruína. Da ruína como ponto zero brota o jogo ambíguo entre ficção e “real”. E põe em cena um duplo espaço que em Memória das Ruínas de Creta podemos denominar, usando uma expressão do poeta Augusto dos Anjos, de “homogeneidade indefinida”. “Homogeneidade indefinida” conceitua o espaço da memória que transita entre o geografar e o cartografar, entre Creta e Vitória, entre texto verbal e texto visual, entre “real” e imaginário. Assim, uma espécie de presença-ausência lúdica (a morte) compõe o resíduo que harmoniza os dois textos como evocação de uma simultaneidade indefinida, próxima e distante ao mesmo tempo. A impressão de morte acumula-se pela constatação de um território de existência, um lugar do lugar, de uma ilha da ilha, onde clausura e liberdade constituem um mesmo campo de sentido. Resulta que ilha é a aparência e o jogo de efeitos, a homogeneidade que indefine o mítico. E, ao mesmo tempo, um objeto de estranhamento, onde a geografia “real” vibra a cartografia mítica. Retornamos sempre ao mesmo ponto: a obra se encena como uma ultrapassagem concreta, familiar. Como a simbiose de uma potencialidade não constituída – ruína. “A ruína do acontecido” (ressonâncias de Walter Benjamin) enquanto efeito de ficção. A ruína enquanto potencialidade indefinida da memória catalisa a “intemporalidade” do “real” como “aparição única de algo distante”. Uma alegoria – “dizer o outro”, mistura do círculo infernal com o paradisíaco, índice que substancializa a ilha “real”. Creta, o fantasma referencial que ilumina e conforma Vitória. Vitória, a memória de Creta. A memória é a serpente-fio tecendo o território do texto. O que faz do ler/ver uma espécie de efeito Ariadne. Ao mesmo tempo, a memória articula o espanto irradiador da origem referencial como um fantasma do olhar. Por isso, o efeito Ariadne do livro se distende para além da confusão entre imagem e palavra que se desdobra da obra em reflexos. Ruína como a câmara de reflexos da memória. Ruína é o efeito Roma/amoR. Memória das Ruínas de Creta revela a beleza no sentido transitivo de Paul Klee, a beleza do horror ou o belo-horror.

Gelson Santana

ilha de Vitória, outono de 1997

REF: 04 Categorias: , , , Tags: , , ,

Brasil

Bernadette Lyra

Nasceu em Conceição da Barra/ES. Escritora com prêmios literários obtidos por todo o país. Tem trabalhos em antologias, revistas e jornais do Brasil e do exterior. Alguns livros de ficção publicados: Memórias das ruínas de Creta (1997, 2ª ed. 2018); Tormentos ocasionais (1998); O parque das felicidades (2009); A capitoa (2014); Água salobra (2017); Ulpiana (2019). Como pesquisadora de cinema publicou O jogo dos filmes (2018) entre outras obras.

Saudade de suas aulas / conversas .... abração

Asdrubal Savioli - @duba_savioli

Descrição

Uma ruína sangra pela ferida aberta da memória. Uma ruína mina o tempo pelo efeito de ficção que provoca. Como entulhos de uma existência entrevivida, uma ruína é a alegoria de um acontecer. Memória das Ruínas de Creta de Bernadette Lyra & Nelma Guimarães persegue, no duplo jogo do texto, a encenação ambivalente do estranhamento através de um olhar familiar. Um olhar zanzando por um espaço aparentemente sem segredos. Ao mesmo tempo que é o cenário onde segredos se ocultam, formando um desenho singular que as duas figurações (imagem & palavra) representam enquanto enigma. Par a par com os sentidos de memória, a obra faz do significado de ruína um gesto poético. O mítico transfigura o geográfico e o geográfico configura o mítico. Essa dupla hélice tem um nome: ILHA. Recorrente, circular, a poética do estranhamento compõe uma coreografia simbólica que agencia a dança imaginária da geografia “real”. Inventa uma Vitória-Creta como ruína da memória. Uma Creta-Vitória como corpo da memória que camufla a perpetuidade de qualquer efeito “mítico”. Dessa forma, a intuição mítica figura o “real” da ficção. Ela é o desenho operante que visualiza o poético na sua construção como enigma. Por isso, nada vigora mais que a encenação desta vertigem vibratória: Vitória ruína de Creta, Vitória-Creta. O que vibra não é o mítico, mas a memória do mítico sob a geografia “real” da ilha de Vitória. A ruína arquiteta o mítico como objeto “real” – Vitória nas ruínas de Creta.

Informação adicional

Peso 0.5 kg
Dimensões 8 × 20 × 20 cm
Acabamento

Brochura sem Orelha e Capa dura

Capa Redesign

Mauro Teles

Páginas

64 p.

Lançamento

2018 – Segunda edição

ISBN

978-85-65943-43-7

Selo

a lápis

Autoras

Bernadette Lyra
Nelma Guimarães

Editor

Gelson Santana

Projeto gráfico re-design

Mauro Teles

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